Para uma Semiótica do Corpo de Maria Augusta Babo, IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão(Org.), Revista de Comunicação e Linguagens, 29, O Campo da Semiótica, Abril, 2001

Recensão crítica de Bianca Côrte-Real

O Corpo é, sem dúvida, um objecto de estudo muito misterioso e complexo. Tem vindo a ser discutido e analisado desde o início do Séc. XXI, persistindo a dificuldade em descodificá-lo. No artigo “Para um Semiótica do Corpo” de Maria Augusta Babo (1) (M. A. B.), é possível averiguar diversos pontos que dizem respeito ao Corpo e também à Pele, conceito que pretendo focalizar ao longo deste resumo crítico.

No artigo em análise, M. A. B. vê o corpo como objecto e simultaneamente obstáculo para a Semiótica, evidenciando que este último aspecto é mais proeminente. A complexidade que emana impossibilita a sua simplificação. Baseando-se no argumento de L. Marin (2), questiona o seu signo inerente e a “subordinação linguística” em relação à comunicação que o corpo tenta transmitir, mesmo que por vezes fracasse na transmissão da mensagem pretendida.

A referência a José Gil (3) neste artigo é de extrema relevância, uma vez que identifica o corpo enquanto “objecto de inscrição de signos/códigos”. Esta noção conota o corpo como significante flutuante, ou seja, signo que vai ganhando sentido e sendo composto com o decorrer das análises feitas. Segundo a mesma perspectiva, o corpo tanto é como uma tela onde se assinalam signos como um objecto-observador capaz de interiorizar e interpretar os signos exteriores que o rodeiam. A este processo duplo se associa a significação latente dos corpos envolvidos.

Antes de prosseguir com a reflexão do corpo, M. A. B. distingue dois conceitos: o de soma e de sema. Enquanto que soma nos direcciona para um corpo objecto, sem vida, cadáver, tal como os gregos o decifravam, soma como carne sem sentido, sema possui o carácter semiológico que soma não poderá tomar, uma vez que este não possui sentido.

Este artigo explora o corpo de várias formas, sendo uma delas do ponto de vista fenomenológico, tido aqui como o mais desenvolvido relativamente ao estudo semiótico do corpo. A ideia, suportada com a tese de Merleau-Ponty (4), de corpo e alma indivisíveis e o conceito de encarnação a este associado fazem todo o sentido, na minha perspectiva: um corpo sem consciência/alma não possui qualquer sentido nem é possível a consciência/alma existir sem um suporte físico e biológico. É necessário que algo contenha a nossa essência e a ligue à dimensão física para que sejamos integrados na rede intersubjectiva existente. O corpo também é, na fenomenologia, tido como possível de localizar no tempo e no espaço. De entre as perspectivas fenomenológicas, M. A. B. interpreta aquela que me parece ser a mais objectiva e concisa nesta área de estudo: A. Vergote refere-se ao corpo como “unificador por excelência da experiência vivida” (5), isto é, trata-se de pensar o corpo como “núcleo de sentido”, como “fonte” de todo o processo semiótico.

Analisando os conceitos de “pele”, “marca”, “prótese” e “exposição do corpo”, é perceptível que estes conceitos estão intimamente ligados, numa compreensão contemporânea do corpo. A pele, noção que pretendo focalizar, é o que nos separa e simultaneamente liga ao mundo. No artigo fala-se de uma “dimensão político-sagrada” e do limite entre o “fora” e o “dentro”. A pele contém, portanto, um vasto leque de signos e sentidos associados. Deduzo que a pele seja, assim como o corpo, um significante flutuante, uma vez que a pele é a primeira instância do “fluxo sígnico” antes do corpo. No entanto, a pele, sendo ela própria passível de tomar diversos sentidos, é também “descodificadora” de sentido. Isto porque o que se codifica também se descodifica. Tomando as tatuagens como exemplo, contendo um significado que tanto pode ser codificador como descodificador. As tatuagens são pessoais, são símbolos na nossa pele que possuem uma interpretação íntima. Mas se tivermos em conta que certos gangs provenientes dos subúrbios possuem tatuagens que os caracterizam como sendo parte integrante daquele grupo, isso descodificá-los-á dos demais – foram “descodificados” através do processo inverso da codificação a que os signos levam.

O conceito “eu-pele” de D. Anzieu (6) é aplicável à análise do desempenho físico das próteses no corpo. Estas servem para melhorar a qualidade da performance, mais do que produzir uma imagem “fantasmada” dum membro amputado. Ainda sobre a pele, Anzieu aborda um tema pouco provável de ser analisado de forma abstracta: as tatuagens, as cicatrizes e os piercings como marca corporal de extractos sociais, ideologias, simbologias e individualismo. Estas marcas, quer sejam impostas na sociedade em que o indivíduo se integra (tribos (7), por exemplo) quer seja por tentativa de individualização e de afirmação numa cultura urbana são o signo provocado na carne com a intenção de dar significado ao corpo ou a parte dele.

Em suma, o corpo, quanto mais explorado é, mais complexo se apresenta. Seria interessante analisar do ponto de vista semiótico a definição de corpo e pele em dois casos extremos: um cego dotado de hipersensibilidade sensorial e uma pessoa que padeça de uma doença genética rara que o leva à ausência de tacto. O corpo contemporâneo terá a tendência de ser ainda mais explorado a nível da sua significação, uma vez que a sociedade o banaliza e provoca um desvanecimento do sentido que lhe assiste. Os conceitos de “corpo” e “pele” serão assim, e cada vez mais, alvo de análises semióticas transcendentais à sua materialidade, ou, aplicando o conceito grego, ao soma.

Notas:

1- In Revista da Comunicação e Linguagem, O Campo da Semiótica, nº29, Lisboa, Abril de 2001, p. 255.
2 – Citação no artigo: «o problema essencial que encontra na sua elaboração uma semiótica do corpo e do gesto na sua subordinação à linguística, às suas categorias e aos seus modelos de comunicação», in Corps: La sémiotique du corps, in Encyclopaedia Universalis, Paris, 1985.
3 – Passagem do artigo em análise: “Na esteira de uma antropologia herdada de Mauss, José Gil entende o corpo como espaço de inscrição de signos/códigos. Entidade ela mesma não codificável, o corpo acolhe os códigos que nele se vêm ancorar ganhando assim um estatuto de significante flutuante. Esta noção fabricada pela antropologia responde à aporia entre uma corporeidade muda do corpo e a sua inegável capacidade de se relacionar com a significação.” Esta passagem encontra-se no segundo parágrafo da página 255.
4 – “A fenomenologia é uma filosofia que recoloca as essências na existência e não acredita que se possa compreender o homem e o mundo senão a partir da sua facticidade.” in M. Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Paris, Gallimard, 1945, p.III. (recolha original de Bártolo, José, in O Corpo e o Sentido, Labcom, p. 135 e 136).
5 – “(…) o corpo vivido é uma recomposição operada por toda uma vida significativa, feita de prazeres, de sofrimentos, de desejo, de angústias e de apropriação de figuras percebidas no mundo ou colhidas nas informações mais ou menos científicas.”
6 – Passagem do artigo em análise: “(…) o corpo-enquanto-pele é por excelência superfície de contacto, abertura ao mundo e ao(s) outro(s), lugar de comunicação e partilha. (…) [Este] eu-pele recobre um lugar físico que serve ao mesmo tempo de ancoragem à fabricação de uma imagem de si. E é justamente sobre este lugar de confluência que é possível inscrever marcas, marcar o corpo, tornando-o, à partida, superfície de inscrição.” Esta passagem (modificada) encontra-se no segundo parágrafo da página 259.
7 – Certas tribos localizadas nas margens do Nilo utilizam lâminas para marcar a pele. Estas cicatrizes tomam a forma de pele de crocodilo, em honra dos crocodilos do Nilo. Quantas mais marcas a pele do elemento da tribo tiver, mais respeito lhe é atribuído na hierarquia da comunidade.

NOTA: Este resumo crítico teve apenas como texto de referência o artigo de M. A. Babo. A obra de José Bártolo foi lida com o objectivo de consolidação de conceitos. Nenhuma outra obra foi analisada senão o artigo “Para uma Semiótica do Corpo” e a obra “Corpo e Sentido”.

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