Lucia Santaella, «Por que a Semiótica de Peirce é também uma teoria da Comunicação”, IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão(Org.), Revista de Comunicação e Linguagens, 29, O Campo da Semiótica, Abril, 2001

Recensão crítica de Susana Albino

Traduzir os princípios fundamentais da semiótica de Peirce e ver até que ponto esta pode ser entendida como uma teoria da comunicação(1) é o objectivo de Lucia Santaella no seu artigo.
Voltando um pouco atrás. No escopo de estudos acerca da comunicação há que distinguir duas vertentes: uma que entende a comunicação como transmissora de mensagens (escola processual da comunicação), e outra que a entende como construtora de sentido (escola semiótica). O que aqui pretendo tratar é esta última – enquanto criadora de significados e constitutiva de mensagens a transmitir.(2)
Peirce – um dos fundadores da semiótica – não escapa ao papel de protagonista neste artigo. Santaella começa por caracterizar a «panóplia peirciana». Ainda que cientista, matemático, físico, historiador, astrónomo (etc.), foi à Lógica e à Filosofia que C. S. Peirce dedicou a sua maior atenção. Em termos estritos, a sua semiótica é pensada como equivalente à Lógica, tomada no seu sentido mais lato .(3) É esta generalidade que permite conceber a sua obra «como uma filosofia científica» (Santaella L., 2000: p.43-44). O que Peirce pretendia era que a Semiótica, como concepção simples e genérica, servisse de teoria tão inteligível e compreensível que, por intermédio da lógica sígnica, fosse capaz de fundamentar e aproximar qualquer área/departamento pensável .(4) A realidade está, para ele, impregnada de signos .(5)
Posto isto, o grande objectivo seria, então, a formulação de conceitos possíveis de aplicar a qualquer objecto. Concebeu Peirce, a acção triádica da semiose: 1. o signo; 2. aquilo a que ele se refere; 3. os utentes do signo .(6) A mais completa definição de signo, «aliquid stat pro aliquo», «estabelece o sinal como algo formal, donde tudo aquilo que, não importa o quê, está por uma outra coisa (…).» (Fidalgo, A., 2005: p. 14).
O objectivo é mediar o exequível de ser conhecido e o conhecimento que é permitido auferir dessa mesma coisa. O signo será o “common sense level ” (7)– como Ransdell o denomina. Pode ser encontrado em qualquer situação (sonho, percepção, memória, imaginação) – eis a sua generalidade – e pode revelar (caso uma cognição o conteste apropriadamente) alguma coisa até então desconhecida – o significado – acerca de uma outra coisa – o objecto que o signo representa (cf. Ransdell, J., (1997) On Peirce’s Conception of the Iconic Sign: 4).

Foi já no final da sua vida que Peirce se dedicou à tentativa de explicar os diferentes modos de os signos veicularem significação. A categorização e classificação dos signos propostas transparecem o esquema da relação triádica da semiose, que inevitavelmente se lhe encontra subjugado.
Fundar uma ciência geral dos signos (8) que abrangesse todo o mundo da experiência humana e garantir a sua comunicabilidade, desejava Peirce. Neste sentido, a sua semiótica pode ser enaltecida como filosofia científica da linguagem, já que examina as condições e as regras sociais que regulam os actos comunicativos. O fenómeno é, então, – entenda-se aqui a fenomenologia que permeia a semiótica peirciana – tudo aquilo, real ou ficcional, que é apreendido pelo ser humano.
Seguidamente, Santaella dedica-se a aproximar a semiótica de Peirce a uma teoria da comunicação. E eis a ideia que pretendo enfatizar: «a semiótica não apenas pode ser vista como uma teoria da comunicação, mas também se pode dizer que a noção peirciana de semiose está enraizada num modelo comunicacional.» (Santaella, L., 2000: p.46)
E o que é a comunicação? Segundo Santaella, «a comunicação apenas existe quando algo é transmitido de um lugar a outro». Toda ela envolve signos/códigos, ou seja, alguma espécie de corporização da informação (mensagem). Estas construções significantes transmitidas ou tornadas acessíveis a outros, não são mais que a prática das relações sociais e o processo pelo qual somos afectados pelos comportamentos do próximo .(9)
«Para a semiótica, a mensagem é uma construção de signos que, pela interacção com os receptores, produzem significados. O emissor perde importância e a ênfase vira-se para o texto e para a forma como este é “lido” .(10) A estrutura comunicacional é uma prática activa, «um ir-e-vir, um dar-e-receber entre pessoa e mensagem» (Fiske, J., 2000: pp. 16 e 69).
O fundamento dos excertos seguintes concentra-se na postulação de que os componentes da relação triádica da semiótica são conceitos abstraídos da cadeia comunicativa processual (emissor-mensagem-receptor). Significa isto que, o termo signo deriva da noção de enunciado/mensagem; o objecto de emissor e o interpretante de receptor.
A semiose é pensada por Peirce como processo de produção do Interpretante – um signo refere-se a algo diferente de si mesmo – objecto -, que, por sua vez, determina um efeito sobre uma pessoa (segundo signo) – Interpretante, de tal forma que este último revele um aspecto ou aspectos parciais do objecto, ao mesmo tempo que é, mediatamente, determinado pelo primeiro.
Contudo, o processo semiótico é infindável: o objecto nunca poderá ser inteiramente conhecido e se o for, não há como o provar. É, portanto, uma inferência do observado/observável para o não observado.
«O conceito peirciano de signo foi o “resultado de uma série de generalizações” (CP, 1.82) (…) elaboradas e integradas com o propósito de iluminar não apenas essas práticas comunicativas, mas também os vários contextos em que essas práticas emergem e continuam e desenvolver-se (Colapietro, idem, 25)», trata Santaella, a propósito da tríade (Santaella, L., 2000: p.50).
A temática que remata o artigo, considera já a semiótica como uma teoria da comunicação e enumera a sua expansão em três interfaces: da objectivação (relação do signo com o seu objecto), da significação (relação do signo consigo mesmo) e da interpretação (relação do signo com os interpretantes). Na prática são três teorias fundidas numa única mais inclusiva e ampla, subjugada ao contexto de acção semiótica.
A teoria peirciana tornou-se tão absorvente que pontua os momentos mais relevantes da história do pensamento ocidental.

Notas Bibliográficas:

1. Modelo que surge com Shannon e Weaver, em 1949 – The Mathematical Theory of Communication: consiste na transferência de informação de uma fonte para um transmissor que, por sua vez, a coloca num canal, até chegar a um receptor, que a fará chegar a um destinatário.

2. John Fiske elucida-nos, «Quando comunico consigo você compreende, com maior ou menor exactidão, o que a minha mensagem significa. Para que a comunicação ocorra, tenho que criar uma mensagem a partir de signos. Esta mensagem incentiva-o a criar um significado para si mesmo e que de algum modo se relaciona com o significado que eu, à partida, gerei na minha mensagem. Quanto mais partilharmos dos mesmo códigos, quanto mais usarmos os mesmos sistemas de signos, mais os nossos dois “significados” das mensagens se aproximarão um do outro.» (Fiske, J., 1990: p.61)

3. «Deve igualmente referir-se aqui que por “semiótica” entendemos “lógica”» (Rosa, A., 2001 :p.53).

4. «Todo o pensamento se dá em signos, na continuidade dos signos.» (cf. Santaella, L. (2001) Matrizes da Linguagem e Pensamento. São Paulo: Iluminuras: p.32)

5. Santaella sublinha bem esta ideia ao destacar a expressão «o universo inteiro está permeado de signos, se é que não seja composto exclusivamente se signos (CP, 5.448, n.1, apud Fisch, 1986, p.360)» (Santaella, L., 2001: p. 45).

6. «O signo é algo físico, perceptível pelos nossos sentidos; refere-se a algo diferente de si mesmo e depende do reconhecimento, por parte de quem o usa, de que é um signo.» (Fiske, J., 1990: p.63).

7. Compreensão fornecida pelo senso comum.

8. «quando dizemos “geral” (…) devemos levar em consideração o grau de generalidade que aí esta implícito» (Santaella, L., 2001: p.45).

9. O objectivo é provocar algum tipo de influência no destinatário.

10. «E ler é o processo de descobrir significados que ocorre quando o leitor interage ou negoceia com o texto.» (Fiske, J., 1990: p.16).

Susana Albino, Novembro de 2008.

3 responses to “

  1. Texto com muito e bom trabalho por trás. A sua publicação no blog é óbvia e completamente justa.

  2. Trabalho muito claro e que acrescenta em resumo tudo aquilo que fomos aprendendo. Ainda bem que aqui foi posto.
    Até porque são matérias difíceis de resumir. A clarificação só pode ser feita depois de apreendida e muitas vezes quanto mais claro mais demonstra o saber sobre uma questão.
    Parabéns Susana.

  3. Um artigo de fundo, sem dúvida, do melhor que se pode encontrar na internet. Vale a pena fazer copy/paste.

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