Fazer Sentido, doar sentido às coisas; a semiótica que anseia ser axiologia (Greimas); a diferença entre sentido e significação; a evolução recente da semiótica

Encontro-me sentado numa cadeira de pele escura em frente do computador onde escrevo. Estar aqui faz sentido. Lembramo-nos de Greimas e da ideia de que estaremos sempre condenados ao sentido (1). Faz sentido a cadeira suportar o meu peso, faz sentido a mesa suportar o computador, faz sentido o facto de estar aqui a trabalhar, empenhado que estou em procurar que as ideias que vou escrevendo façam sentido e, se sobre isso me questionar (questionação que naturalmente se tende a não dar) evidentemente, faz sentido ter corpo, posso dizer que o meu corpo (que sinto apenas parcialmente: sinto os dedos na resistência do teclado; sinto as costas face ao desgaste da posição em que estou sentado; há pouco senti sede, etc.) faz sentido, num fazer sentido que, como se percebe, é anterior a qualquer análise semiótica.

Fazer sentido é uma expressão que se presta a alguma equivocidade, nós não “fazemos” o sentido da mesma forma que “fazemos” um objecto (como fazemos uma bife ou um texto) e parece claro que o sentido se faz mais para nós (o sentido manifesta-se) do que nós o fazemos a ele. No nosso corpo-a-corpo com as coisas faz-se sentido ou, em linguagem semiótica, o sentido é essa construção intersubjectiva através da qual as coisas são usadas (os signos pretam-se a usos) resolutivamente.

Fazer sentido, doar sentido às coisas, é, por sua vez, alvo de toda a actividade hermenêutica. Mas, como muito bem esclarece Geninasca «le sens que l’on donne, alors, au gré d’une intuition que patronnent un savoir ou des convictions partagés ou au terme d’un travail descriptif subordonné aux contraintes d’un modèle théorique, ne saurait coïncider avec le sens des choses et des êtres ou des discours dont l’immédiateté tient à notre double inscription dans un corps biologique et dans un corps social. » (2).

O sentido nasce como um acaso antes de ser subjectivado no quadro dos acontecimentos humanos (3) , a sua fonte residirá na compreensão de nós próprios – fazermo-nos sentido, sentirmo-nos – mediada não só por signos mas, fundamentalmente pelo outro e na relação com o mundo, isto é, intersubjectivamente. Resulta daí que a compreensão de si coincide com a interpretação aplicada a estes termos mediadores, o sujeito é, assim, o corpo-que- se- abre- outro, que fala e responde, que enuncia e é enunciado.

Para a sociossemiótica o sujeito é uma instância discursiva e praxeológica, em relação dinâmica, tensiva – fórica, tímica e patémica – com outras subjectividades que recebem a sua objectivação no plano social. Para alguém orientado pelo olhar semiótico, qualquer “coisa” (o signo pressupõe uma certa coisificação que é condição do seu stat pro), seja uma publicidade, um poema, o modelo de organização de uma empresa ou o discurso de um político, começa por ser como que um texto, um documento a ler. De facto, não fazemos outra coisa senão “ler” as coisas, interpretá-las, usá-las.

Sabemos hoje que a semioticização não se detém nos textos e nos discursos, ela avança para o nível dos objectos, das situações e das formas de vida. Dever-se-à considerar, portanto, que os signos, qualquer “coisa”, é semioticizado como texto, como discurso, enquanto situação, como paixão e enquanto forma de vida, expressão de um sentido fixado. Seguramente estes níveis são atravessados por uma discursificação e uma praxis dinâmicas, envolvendo uma série de mecanismos e competências, para dar conta dos quais podemos recorrer à noção de máquina semiótica, que deve ser entendida como plano sócio-semiótico de produção de sentido das coisas.

Em De la Imperfección, Greimas escreveu que “a fronteira entre o observável e o desejável é insustentável, sobretudo para uma semiótica que anseia ser, ao mesmo tempo, uma axiologia.” (4) . O semiótico deve “honrar o que lhe aparece”, envolve-o uma certa “nostalgia da perfeição” que só deverá agudizar a sensação intensa de, de cada vez, se sentir vivo e, de cada vez, em cada instante, se sentir morrer. Se Greimas evoca a parábola bíblica, aludindo à vã tarefa de “edificar sobre a areia”, é por se aperceber que é essa a tarefa que, em grande medida, cabe em sorte ao semioticista: saber honrar o instante, estar à altura do que lhe aparece, mesmo que o pleno encontro – a “fusão total do sujeito e do objecto” (5) ou, ainda, o encontro com o sentido – esteja, e ele o saiba, de cada vez e sempre, prometido e adiado.

Aqueles que encontraram o sentido da vida aparentemente estão mortos. À semiótica não se pode exigir a descoberta do sentido mas, tão somente, a explicitação da significação. A significação tende para o sentido. A semiótica é uma disciplina tensiva, sem dúvida, mas poder-se-ia dizer, de um modo igualmente verdadeiro, que ser é estar em tensão e, mais, que existir é estar em “tensão semiótica”, em “vigilante espera”, na expressão de Greimas. Só há espera no que é antecipável. A tensão semiótica não resulta senão de um anúncio, de um vislumbre, vislumbre estésico que ocorre em cada encontro de nós com as coisas, em cada corpo-a-corpo – agora que vejo a minha mão, agora que observo mais adiante o sofá verde, agora que me apercebo do brilho distante mas intenso de uma estrela na noite escura. É por a vida ser irrecuperável que a aparência é maravilhosa. E há nisso um sentido que se emudece, que sei não ser nunca capaz de dizer plenamente e todavia senti-o e “fizemos sentido” – um ao outro.

A este estado de consentido entre nós e as coisas, este consentimento operado pela experiência estética sobre mediação do corpo perceptivo, designa Greimas por coalescência, essa experiência que é sustentada na entre sujeito que observa (e, claro, que enuncia) e objecto que aparece (e que é por nós enunciado). (6).

Nesse corpo-a-corpo entre nós e as coisas estão envolvidos determinados conteúdos decisivos no modo como o sentido se faz. A esses conteúdos designa Umberto Eco por primitivos semiósicos e a sua consideração é de decisiva importância numa semiótica do sensível e, em particular, numa semiótica do corpo.

Umberto Eco di-lo assim: «Pensemos num ser posto num ambiente elementar, ainda antes de entrar em contacto com outros semelhantes. Este ser deverá adquirir, seja como for que decida denominá-las, algumas “noções” fundamentais (mesmo que a seguir decida institui-las em sistema de categorias, ou até de unidades de conteúdo): deverá ter uma noção do alto e do baixo (essencial para o seu equilíbrio corporal), do estar de pé ou deitado, de algumas operações fisiológicas como engolir ou expelir, do caminhar, do dormir, do ver, do ouvir, do perceber sensações térmicas, olfactivas ou gustativas, do sentir dor ou alívio, do bater as mãos, do penetrar com o dedo uma matéria mole, do bater, do apanhar, do esfregar, do coçar-se, e assim por diante. Assim que entra em contacto com outros seres, ou em geral com o ambiente circundante, deverá ter noções respeitantes à presença de algo que se oponha ao seu corpo, da cópula, da luta, da posse ou da perda de um objecto de desejo, provavelmente da cessação da vida…Seja como for que chegue a conferir nomes a estas experiências fundamentais, certamente elas são originais.» (7).

Na sua Microsemântica, François Rastier (8) mostrou que há certas classes de significados a que os seres humanos são ajustados de modo inato, quer dizer que no momento em que se entra na linguagem, há algumas disposições ao significado que são de carácter pré-linguistico, que são inerentes a esse corpo-a-corpo original com as coisas.

Para a intersemiótica recente (9) torna-se claro que há sentido resultante desse intercorpo, como a ele se refere Herman Parret, entre nós e o real. “O real é, na verdade, o que se faz sentir, o real é, também ele, corpóreo.” (10). O real é o que se faz sentido.

O semiótico sabe, no entanto, que embora tendo o sentido como alvo, apenas pode almejar a estudar a significação. A diferença entre o sentido e a significação é análoga à diferença entre ser e parecer. A semiótica estuda a significação na medida em que ela se ocupa do parecer, do poder-ser do sentido.

(Continua…)

Notas:

1. A. J. Greimas, Du Sens, Paris, Seuil, 1970.

2. Jacques Geninasca, “Quand donner du sens c’est donner forme intelligible” IN E|C, Rivista dell’Associazione italiana di studi semiotici, Iuglio, 2004, p. 1.

3. A formulação é de José Augusto Mourão encontramo-la em Sujeito, Paixão e Discurso. Trabalhos de Jesus, Lisboa, Vega, 1996, p.12.

4. A ideia é também trabalhada por Greimas em “Algirdas Julien Greimas mis à la question”, IN M. Arrivé et al. (Eds.), Sémiotique en jeu, Paris, Hadès, 1997; veja-se, nomedamente a nota 9.

5. A. J. Greimas, De la imperfection, Périgueux, Fanlac, 1987, p.73.

6. Se Greimas emprega o termo “coalescência” para definir o poder das sensações que operam em sincretismo, C. Zilberberg recorre ao mesmo conceito para explicitar, aproximando-se de V. Brodal, a actuação simultânea de um programa e de um anti-programa narrativo que assegura o teor tensivo do termo complexo. Cf. C. Zilberberg, “Le schéma narratif à l’épreuve”, IN Protée, XXI, 1, 1993, p. 66.

7. Umberto Eco, Kant e o Ornitorrinco, Lisboa, Difel, 1999, p. 147.

8. François Rastier, “La microsémantique”, IN F. Rastier et al., Sémantique pour l’analyse, Paris, Masson, 1994.

9. Justifica-se, agora, uma definição mais clara daquilo em consiste a intersemiótica. O conceito de intersemioticidade é originário do pensamento de Roman Jakobson; por tradução intersemiótica Jakobson compreendia a operação que permite a transferência de um determinado signo de um regime semiótico para outro (por exemplo do campo visual para o campo táctil, como acontece na escultura).
Mais decisiva é a definição que Greimas avança em Semiótica e Ciências Sociais caracterizando a intersemioticidade como a análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro ou macro social de um determinado objecto [Cf. A.J. Greimas, Sémiotique et Sciences Sociales, Paris, Seuil, 1976].

10. Herman Parret, « A intersemioticidade das correspondências artísticas”, IN Mª Augusta Babo e José Augusto Mourão, O Campo da Semiótica, RCL nº29, Relógio d’Água, Lisboa, 2001, p. 214.

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