Jonathan (ou a procura d’A IMAGEM)

A fotografia é uma das imagens mais impressionantes do 11 de Setembro de 2001. Faz parte de uma série de 11 fotografias tiradas por Richard Drew, repórter fotográfico da Associated Press, celebrizado pela cobertura chocante que fez do assassinato de Bob Kennedy, e representa um dos muitos “jumpers” do World Trade Center que escolheram saltar para a morte, num mergulho terrível e, ao mesmo tempo, algo “libertador”, em vez de sufocarem no mar de chamas e fumo que invadiu os andares superiores das Torres Gémeas.
Embora se certezas absolutas, todos os indícios apontam para que o “Falling Man” (como ficou conhecido) seja Jonathan Briley, um trabalhador do Windows of the World, o restaurante do 106 andar da Torre Norte, de onde Jonathan se decidiu atirar para o seu voo fatídico, exatamente quinze segundos depois das 9 e 41.
Esta fotografia não é como as outras. Surge impregnada de uma incomodativa correcção estética, com o rigoroso alinhamento vertical da composição, a colocação “estudada” do corpo no enquadramento, a justeza da escala, a posição desconcertante e exacta do indivíduo. Como o próprio fotógrafo afirmou: “Quando se trabalha em fotografia digital, habituamo-nos a procurar A IMAGEM. Esta fotografia parecia saltar no ecrã, por causa da sua verticalidade e simetria. Tinha o “tal ar”.
Digamos que é a procura deste “ar” – uma outra forma de falarmos das propriedades icónicas da realidade – que vem pautando, cada vez mais, a atitude do fotógrafo face ao acontecimento. Como qualquer editor sabe, é a retórica cristalina, a transparência exemplar e rara destas imagens que as põe a circular nos media, com tamanha velocidade e capacidade persuasiva. São estas as imagens que vendem, porque pensam o real por elas próprias, porque parecem traduzir a própria vontade do real em se transformar em imagem, eternizando-se.
Para trás ficarão todas as outras: menos preocupadas com este impacto icónico, avassalador, com essa vontade de congelar o tempo e a história, e mais atentas à ambiguidade a aos matizes humanos de uma história, de um acidente, de uma pequena ou grande tragédia. É também essa a fronteira que separa a propaganda do documentário, a vida das imagens das imagens da vida.
Apesar de não parecer, Jonathan morreu mesmo no chão do WTC, quinze segundos depois das 9 e 41, do dia 11 de Setembro de 2001.

(Adaptado de “Jonathan” de João Mário Grilo)

8 responses to “Jonathan (ou a procura d’A IMAGEM)

  1. O choque que me avassala ao ver esta fotografia, é de certa forma “ensombrado” pelo poder da estética (“negra”) da própria imagem. É um misto de emoções aquilo que me vem à cabeça. Pensar no quão terrível será a morte lenta e dolorosa, mas também no quão terrível será termos a noção de que a nossa única escolha é saltar do abismo, para uma liberdade de poucos segundos, que culmina na morte certa.
    Jonathan é um herói.

  2. O impacto estético da imagem (a sua, diriamos nós, “qualidade formal”) intensifica a própria leitura da imagem. Se por um lado nos leva a estabelecer um relação contemplativa (a admirar a correcta composição formal, o enquadramento, a capacidade da fotografia registar o instante) por outro lado, dessa relação quase de prazer, nasce a fonte de uma certa angústia, a consciência de aquela imagem fixa o instante único e irrepetível, o terrível instante, de alguém (tornado nosso próximo pelo poder de aproximação dos media) que se atira para a morte, num voo sem refresso. A imagem suspende o voo, paralisa a queda, permitindo-nos olhar uma e outra vez para o momento anterior, exactamente anterior, ao momento horrível (que apenas podemos imaginar mas que domina a leitura da imagem) da queda bruta, pesada, do corpo no chão (Walter Benjamin fala da fotografia como a “ante-câmara da morte”).
    No fundo é uma certa “qualidade técnica” da fotografia de Richard Drew que nos faz “ver” o punctum, para usar o termo de Barthes, daquela fotografia. É por ele que ficamos presos à imagem, é esse punctum que agora nos toca (e já não o jogo gráfico, a simetria, o enquadramento) e que insiste em nos fazer lembra: Jonhatan morreu às 9h41 do dia 11 de Setembro de 2001 e nós testemunhámo-lo.

  3. Felizmente tive a oportunidade de ver (e rever) o documentário “9/11: The Falling Man” que retrata o tratamento que esta imagem teve depois do 11 de Setembro, bem como a procura do homem retratado.

    Devo dizer que sinceramente me espantou a atitude que o povo americano adoptou perante a imagem. Por um lado, recusou-se a admitir sequer a ideia de que as pessoas das torres teriam escolhido saltar, preferindo antes considerar que algo os teria “empurrado” através das janelas, e, por outro lado, o facto de acharem que não seria uma imagem digna para representar aquele dia.

    A imagem é directa e seca como um soco que deixa levemente um gosto a sangue na boca e, correndo o risco de poder ser chamado insensível, é de certo modo reconfortante pois, apesar de a morte que o aguardava 400 metros mais abaixo, podemos ter a certeza que Jonathan viveu intensamente aquele voo, não como o prelúdio da sua morte brutal, mas como um voo de liberdade opondo-se a uma situação opressiva, a derradeira forma de justiça poética.

  4. A fotografia é extremamente chocante. Embora, aquando da tragédia, tivesse tido a oportunidade de visualizar imagens semelhantes, admito que não reparei na verticalidade da fotografia (creio que devido ao impacto do momento). Agora, que a observo com maior atenção, apercebo-me dos seus traços e de como todos o elementos se encontram em sintonia e em conformidade. O resultado final é deveras interessante, contudo não deixa de despoletar em mim uma certa angústia e um certo “incómodo”.

  5. Há imagens que falam por si e esta é, sem dúvida, uma delas. Suscita em nós, logo à primeira visualização, um sentimento de terror (não fosse aquilo que está representado na imagem o resultado de um acto de terrorismo!). No entanto, é importante salientar que Jonathan provou ser um homem inteligente, na medida em que preferiu, nos seus últimos segundos de vida, experimentar aquilo que ninguém experimenta: sentir o verdadeiro gosto da liberdade, uma sensação que todos pensam estar ao seu alcance, mas que na verdade não está. A palavra “liberdade”, nos dias que correm, é só por si um misto de incertezas, escolhas, desejos, arrependimentos, angústias. Só somos livres em pensamento. Jonathan foi-o em todos os sentidos.

  6. Perturbação, horror, tristeza, compaixão e beleza. Alguns dos sentimentos que me são transmitidos (a mim e aos outros também, suponho) por esta imagem. É deveras perturbador…

    O que vou por em causa pode parecer um tanto mórbido, questiono-me se Jonathan terá feito a melhor escolha…
    Realmente ser lambido pelas chamas não seria uma boa ideia, mas uma queda daquela altitude também não é.

    Jonathan teve de escolher entre dois males, será que escolheu o melhor?
    É evidente que, no desespero e na adrenalina daquele momento, a queda lhe tenha parecido mais razoável. Mas o fim foi o mesmo, a morte, tão dolorosa quanto o ardor das chamas do incêndio.
    Terá ele tido em mente a ideia de “liberdade”, ou terá ele pensado em qual das mortes seria a menos dolorosa?!

    De qualquer forma, a morte trás consigo sempre a ideia de liberdade. Do meu ponto de vista, Jonathan tanto podia morrer queimado, como morrer despedaçado no solo de New York. A ideia de liberdade é igual.

    É claro que isto pode ser interpretado como um acto de libertação do espirito, da alma, como o melhor caminho para a “paz eterna”.

    Terá sido inteligente na sua escolha?
    E no lugar dele (e dos outros jumpers) o que teriam escolhido?

    Por outro lado, esta imagem é uma foto “bem conseguida”. A sua beleza estética e mórbida é perturbadora (até dizer chega) e levanta algumas questões, das quais já foram apresentadas.

    Pensem bem.

  7. «Life is pleasant. Death is peaceful. It’s the transition that’s troublesome.»
    Isaac Asimov

  8. Segundo vários cientistas e estudiosos, os jumpers das Torres Gêmeas terão morrido mesmo antes de chegarem ao chão. Devido à força da gravidade, o cérebro do individuo deixa de funcionar e o coração também.

    Não ponho em causa esta teoria, mas resta saber se mesmo assim há ou não há, presença de dor e sofrimento físico…

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