Notas de leitura de “A Sociedade Reflectida” de Eric Landowski

Notas de leitura de A Sociedade Reflectida de Eric Landowski

A função da Semiótica é, na sua primeira expressão, a de colocar a questão de saber como a significação vem ao mundo e como os sujeitos ganham existência (semiótica).

Como o postulado é o de que a significação não está “nas coisas”, mas resulta da sua colocação em forma (que só pode ser efectuado pelo ponto de vista de um observador competente), tudo depende, no que diz respeito à resposta, da maneira de conceber quer a relação entre essas duas instâncias (o sentido, o sujeito), quer do estatuto que lhes pode ser atribuído enquanto termos resultantes dessa relação.

Em certa medida, os termos prestam-se mais facilmente à definição do que à relação que os une e que, numa primeira opção, podemos descrever com a relação de pressuposição que se estabelece entre o surgimento de uma existência (a do sentido) e o exercício de uma competência (a de um sujeito) – ao sujeito semiótico competente fazer ser sentido. Correspondendo este “fazer-ser” à definição do “acto”, torna-se claro que esta formulação procura sublinhar as ideias, centrais para a semiótica, de construção dinâmica, de operação e de generatividade. É isso, aliás, que distingue decisivamente o “gesto semiótico” do “gesto fenomenológico”: o sentido longe de ser recebido ou percebido é pensado como fruto de um acto semiótico gerador, que se dá em situação (em contexto e não em suspensão), que o constrói.

Nas últimas aulas substituímos o verbo “fazer” pelo verbo “significar”

Substitua-se agora o verbo “significar” pelo verbo “enunciar”. A enunciação pode ser compreendida como o acto pelo qual o sujeito faz o sentido ser; correlativamente, o “enunciado” realizado e manifestado aparecerá, na mesma perspectiva, como o objecto cujo sentido faz o sujeito ser. Identificamos, assim, enunciação e função semiótica (ou, mais tecnicamente, enunciação e percurso generativo da significação).

Substitua-se agora o verbo “enunciar” pelo verbo “discursificar”. A dicursificação identifica o modo como o sentido enunciado é disposto em situação, o modo como nós fazemos coisas com ele.

Se a enunciação é, afinal, um acto enunciativo (acto no sentido produtivo do termo), o postulado aqui é o de que todo o acto se torna, por definição sujeito a uma gramática geral do fazer (a uma disposição, a um dispositivo) que, entre outras coisas, implica ela mesma a instalação e colocação em movimento de certos dispositivos actanciais. A enunciação pressupõe fazer-agir os enunciados através de determinações modais operadas pelos enunciadores do próprio discurso, trata-se de um fazer-agir discursivo que se dá sempre num determinado contexto semiótico. Quer as condições de produção, quer as condições de enunciação (semioticamente falando) pertencem à gramática discursiva (as campo de possibilidades do discurso).

Semioticamente falando, nada no que nos ocupemos (como objecto de estudo) é dado a priori, nem a existência de um “campo social”, nem a realidade das “relações sociais”. Tudo o que faz sentido é construído, pressupondo um a fazer de ordem cognitiva que remete, nos sujeitos, ao que chamamos “competência semiótica”. O objectivo da sociosemiótica será compreender “o que fazemos” (a semiótica estuda semióticas) para que, por um lado, o “social”, o “político”, o “tecnológico” existam para nós como universos relativamente autónomos (saber como os construímos como objectos) e por outro lado perceber como as relações que aí se estabelecem entre actores sociais são, elas próprias, carregadas de significação para os sujeitos que as vivem ou observam. O que falando mais tecnicamente equivale a prever três ordens de problemas: de semântica, relativos ao estabelecimento e à organização dos valores e dos objectos significantes que o discurso social manipula; de sintaxe, relativos ao estabelecimento e as alterações das relações entre sujeitos, condicionando a circulação intersubjectiva dos valores; de pragmática, relativos às condições de uso dos elementos estruturais no plano das práticas vividas (ou ainda, em contexto).

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