O terceiro sentido – Roland Barthes

O TERCEIRO SENTIDO
Notas de pesquisa sobre alguns fotogramas de S. M. Eisenstein
*

A Nordine Sail, director do Cinéma 3

Vejamos uma imagem de Ivan, o Terrível: dois cortesãos, dois ajudantes, dois comparsas (pouco importa se não me lembro bem do pormenor da história) entornam uma chuva de ouro sobre a cabeça do jovem Czar. Parece-me possível distinguir nesta cena três níveis de sentido:

1. Um nível informativo, onde se acumula todo o conhecimento que me fornecem o cenário, os trajes, as personagens, as suas relações, a sua inserção numa anedota que eu conheço (ainda que vagamente). Este nível é o da comunicação. Se fosse preciso encontra-lhe um modo de análise, seria para a primeira semiótica (a da mensagem) que eu me voltaria (mas desse nível e dessa semiótica não nos ocuparemos aqui).
2. Um nível simbólico: é o ouro entornado. Este nível está ele próprio estratificado. Há o simbolismo referencial: é o ritual imperial do baptismo pelo ouro. Há, em seguida, o simbolismo diegético: é o tema do ouro, da riqueza (supondo que ele existe) em Ivan, o Terrível que teria neste caso uma intervenção significante. Há ainda o simbolismo eisensteiniano – se, acidentalmente, um crítico se lembrasse de descobrir que o ouro, ou a chuva, podem ser inseridos numa rede de deslocamentos e de substituições, própria de Eisenstein (1). Há, por fim, um simbolismo histórico, se, de um modo ainda mais vasto que os precedentes, pudermos mostrar que o ouro introduzido numa representação (teatral) numa cenografia que seria a da troca, é assinalável ao mesmo tempo psicanalítica e economicamente, isto é, semiologicamente. Este Segundo nível no seu conjunto é o da significação. O seu modo de análise seria uma semiótica mais elaborada do que a primeira, uma segunda semiótica ou neo-semiótica, aberta, já enquanto ciência da mensagem, mas enquanto ciência do símbolo (psicanálise, economia, dramaturgia).
3. Será tudo? Não, pois ainda posso separar-me da imagem. Leio, recebo (provavelmente mesmo, em primeiro lugar), evidente, errático e insistente, um terceiro sentido (2). Eu não sei qual é o seu significado, pelo menos não consigo nomeá-lo, mas vejo bem os traços, os acidentes significantes de que este signo, desde então incompleto é composto; é uma certa capacidade da máscara dos cortesãos, ora espessa, marcada, ora lisa, bem delineada; é o nariz “ridículo” de um, é o fino desenho das sobrancelhas de outro, o louro deslavado, a tez branca e murcha, a chateza afectada do penteado que cheira a postiço e a harmonia de tudo isto com a base argilosa, com o pó de arroz. Não sei se a leitura deste terceiro sentido tem fundamento – se a podemos generalizar – mas parece-me já que o seu significante (os traços que acabo de tentar dizer, senão descrever) possui uma individualidade teórica; por um lado não a podemos confundir com o simples estar-lá da cena, pois excede a cópia de motivo referencial, obriga a uma leitura interrogativa (a interrogação incide precisamente sobre o significante, não sobre o significado, sobre a leitura, não sobre a intelecção, é uma captação “poética” (3); e por outro lado, já não se confunde com o sentido dramático do episódio: dizer que os traços remetem para um ar significativo dos cortesãos, ora distante, ora interessado, não me satisfaz plenamente: algo, nestes dois rostos, excede a psicologia, a anedota, a função e, para dizer tudo, o sentido, sem contudo se reduzir à teimosia que todo o corpo humano põe em estar lá. Por oposição, este terceiro nível – mesmo se a sua leitura ainda é arriscada – é o da significância; esta palavra tem a vantagem de remeter para o campo do significante (e não da significação) e de se ligar através da via aberta por Julia Kristeva, que propôs o termo, a uma semiótica do texto.

Só a significação e a significância – e não a comunicação – me interessam, neste caso. Tenho, pois, de nomear, tão economicamente quanto possível, o segundo e o terceiro sentidos. O sentido simbólico (o ouro entornado, o poder, a riqueza, o rito imperial) impõe-se-me por uma dupla determinação: é intencional (foi o que o autor quis dizer) e é extraído de uma espécie de léxico geral, comum, dos símbolos (4); é um sentido que me procura, a mim, destinatário da mensagem, sujeito da leitura, um sentido que parte de Sergei Eisenstein e que vai à minha frente: evidente, sem dúvida (o outro também o é), mas de uam evidência fechada, inserida num sistema completo de destinação. (…)
Quando ao outro sentido, o terceiro, aquele que vem “a mais”, como um suplemento que a minha intelecção não consegue absorver bem, ao mesmo tempo insistente e fugidio, liso e esquivo, proponho chamar-lhe o sentido obtuso.

Referências:

1. De uma forma análoga ao modo como, por exemplo, a aparição de Alfred Hitchcock numa sequência dos seus filmes assinala o carácter decisivo daquela sequência.

2. No paradigma clássico dos cinco sentidos, o terceiro sentido é a audição (considerado o mais importante pelos medievais); é uma coincidência feliz pois trata-se mesmo de uma escuta.

3. No sentido grego de uma poietike téchné, enquanto capacidade de criar “imagens” (eikones) que possam mediar os nossos processos de cognição e de comunicação.

4. Está, de certo modo, codificado.

* Le Troisième Sens. Notes de recherché sur quelques photogrames de S.M. Eisenstein, Cahiers du Cinéma, 1970 (tradução, adaptação e notas de José Bártolo).

One response to “O terceiro sentido – Roland Barthes

  1. Obrigado! Estes resumos são mesmo um grande apoio às aulas =D

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