Resumo da Aula (03 de Outubro)

O termo que a tradição filosófica Ocidental traduziu como signo é, na tradição latina, signum e, em grego, σημειον (sémeion).

O signo surge-nos como termo técnico-filosófico no século V a.C., com Parménides e com Hipócrates que o encontram no léxico dos médicos e semiólogos que os antecederam. σημειον surge, muitas vezes, como sinónimo de tekmerion (“indício”, “sintoma”) e uma primeira distinção decisiva entre os dois termos só é desenvolvida na Retórica de Aristóteles.

O signo é na sua definição clássica aliquid stat pro aliquo. Como dirá Charles S. Peirce , “um signo é algo através do conhecimento do qual nós conhecemos algo mais” daquelas coisas que não poderemos nunca conhecer plenamente. Como dizia um poeta da Grécia antiga “os deuses conhecem as coisas directamente, aos homens resta conhecer a partir de indícios (tekmerionai)”. O signo remete-nos, pois, para uma certa ideia de representação, ínsita à linguagem, quer “das coisas invisíveis” quer das “coisas visíveis”. De resto, pelo signo como que se gera um encontro particular entre uma determinada invisibilidade (ou indizibilidade) que não se conforma nunca plenamente no que é visível (ou dizível).

No Tratado do Signo, escrito pelo português João de São Tomás em 1637, a formulação aliquid stat pro aliquo, surge assim definida: “aquilo que representa à potência cognitiva alguma coisa diferente de si”. O signo é: “aquilo” (aliquid) “que esta por” (stat pro) “aqueloutro” (aliquo), ao que J. De S. Tomás acrescenta “à potência cognitiva”. O conceito de potência cognitiva é aristotélico. Aristóteles, em resposta aos eleatas, pensa os seres como constituídos de potência e acto. O acto é a determinação, aquilo que um ser num determinado momento é; a potencia é a indeterminação determinável, o conjunto de possibilidades que uma coisa, por acção do acto, pode vir a ser (Deleuze chamar-lhe-á devir); João de S. Tomás usa o termo para se referir às possibilidades cognitivas e comunicativas (possibilidades de ver, possibilidades de tocar etc.).

A semiótica moderna, por exemplo em Charles Morris, sublinhará esta ideia; Morris nos seus Fundamentos de uma Teoria dos Signos de 1938, dirá que algo é signo apenas porque um intérprete o constituiu como signo no processo de semiose (a isto chama-se, em semiótica, imanência e generatividade do signo).

O mecanismo inferencial que rege o stat pro é construindo semioticamente; o “fumo” só é signo do “fogo” porque um sujeito competente desenvolveu o exercício lógico de implicação “p ) q”.

Do signo é consensual:

a) a sua definição, traduzida pela tradição clássica como aliquid stat pro aliquo. O signo como categoria tensiva (vide Zilberberg), produzido por um sujeito competente no interior do processo da semiose, que “representa” subalternamente um “original” ausente.

b) a descrição da sua estrutura. Devemos aos estóicos a interpretação do signo como um elemento que põe em relação três entidades: um significante, um significado ou lekton e um objecto que é uma realidade exterior referida pelo signo. O lekton é a capacidade de um significante evocar um “objecto”, é a capacidade do primeiro elemento evocar o terceiro – fumo – fogo – através de uma operação gerada pelo sujeito semiótico (resultado de um acto discursivo).

Saussure falou de entidade de duas faces, significante e significado, impondo uma nomenclatura que se tornou dominante; Hjelmslev na relação entre dois functivos, o plano da expressão e o plano do conteúdo, envolvendo uma nomenclatura mais operativa para a semiótica estrutural.

c) a sua tipologização. A qualidade de “estar por para” é operada por diversos tipos de signos: sinais; sintomas; ícones; índices; símbolos; nomes.

d) a sua taxinomia. Dada a natureza relacional dos signos, classificar signos pressupõe classificar as relações sígnicas. Umberto Eco, na esteira de Charles S. Peirce, expõe sistematicamente as diversas classificações de signos: os signos diferenciam-se pela fonte; pelas inferências a que dão azo (relação por associação no caso dos signos artificiais; e por inferência no caso dos signos naturais); pelo grau de especificidade sígnica; pela intenção e grau de consciência do emissor; pelo canal físico e pelo aparelho receptor humano; pela relação ao seu significado, podendo ser unívocos, equívocos, plurívocos ou vagos; pela replicabilidade do significante; pelo tipo de relação pressuposta com o referente; pelo comportamento que estipulam no destinatário, podendo ser, Segundo Morris, signos identificadores, designadores, apreciadores, prescritores e formadores; finalmente os signos diferenciam-se pelas funções do discurso, aqui podemos seguir a classificação trabalhado por R. Jakobson que distingue seis funções da linguagem : a função referencial, a emotiva, a fática, a imperativa e a metalinguistica.

O signo corresponde ao que Agamben chama de “uma representação da linguagem”, isto é, uma construção operada pela linguagem que gera um elemento mediador das nossas operações cognitivas e comunicativas.

À semiótica não interessa, porém, reduzir-se à analítica elementar do signo mas antes dar conta daquilo que nós somos capazes de fazer com eles (os signos) e do que eles são capazes de fazer connosco, i.e., à semiótica interessa compreender as dinâmicas discursivas que operando a partir de signos, fazem gerar sentido.

Dito assim: o objecto da semiótica não é o corpo morto mas o corpo vivo. À semiótica, pelo menos na perspectiva da semiótica estrutural ou discursiva (aberta com Saussure, e depois dele com Hjelmslev e Greimas, a uma sociosemiótica) não interessa o sentido a priori, já fixado mas o sentido em situação de discurso, o devir, relativamente ao qual o analista e o protagonista podem coincidir (sujeito semiótico).

De uma analiticidade lógica fechada no signo (que caracterizou a semiótica elementar) passamos para uma analiticidade intersubjectiva aberta à significação (que caracteriza a semiótica discursiva ou dinâmica).

A passagem da semiótica estrutural para a semiótica discursiva não introduz apenas um alteração no objecto (ou campo) da semiótica, mas na própria compreensão do sujeito, já não o sujeito distanciado na semiótica estrutural mas agora um sujeito participativo, patológico (pathos + logos) e produtivo, simultaneamente analista e protagonista de um processo intersemiótico marcado por diversos níveis de pertinência semiótica (impressões estésicas, práticas corporais, configurações dinâmicas, tipos actanciais).

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