Fragmento (Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva)

0. PERSPECTIVA SEMIÓTICA

0.1 PROJECTO SEMIÓTICO

A semiótica – tal como ela será aqui considerada – tem por objectivo a exploração do sentido. Isto significa, em primeiro lugar, que ela não se reduz somente à descrição da comunicação (definida como a transmissão de uma mensagem de um emissor para um receptor 1): englobando-a, ela deve dar conta de um processo muito mais geral, o da significação.

Restringir o campo semiótico à comunicação, como fazem alguns, consiste muitas vezes em postular uma “intenção” de comunicar, cujo estatuto será sempre muito difícil de precisar: a que nível, com efeito, colocar a “intenção” (psicológica, sociológica, etc.) e segundo que critérios reconhecer a sua existência? É ela somente da ordem do explícito, ou será necessário ter em conta o implícito? Noutros termos, o campo da comunicação (concebida como um fazer-saber) poderá ser delimitado por um querer-comunicar, um querer-fazer-saber? O que acontecerá com a comunicação efectiva mas não voluntária (ex: aquele que “se trai”) ou constrangedora (por uma fazer-querer-comunicar), devido a ameaça, por exemplo? (…)

A descrição da significação não deixa de colocar a questão mesma da sua possibilidade, pelo menos numa perspectiva que se quer científica. Na medida em que ela trata do sentido, a semiótica – como qualquer investigação sobre a significação – só pode ser a “transposição de um nível de linguagem num outro, de uma linguagem numa outra diferente” (GR 1970, 13). Deste ponto de vista a semiótica define-se como uma metalinguagem em relação ao universo de sentido que ela se dá como objecto de análise. Ela não se reduz por isso a uma simples paráfrase que restituiria, sob uma outra forma, os dados de base, segundo um princípio de equivalência: neste caso, com efeito, a melhor equivalência de um texto, por exemplo, é este mesmo texto.

Se a semiótica é uma transcodificação, ela é também mais do que isso. Enquanto operação de descrição, ela deve precisar o ou os níveis de análise em que pretende situar-se: isto significa que ela considera os objectos que estuda só sob um aspecto bem determinado que lhes é comum: tal é o princípio de pertinência. Tratando de uma colecção de dados, o fazer semiótico só se exercerá na medida em que retiver apenas as suas características comuns (…), para extrair (2) o sentido, a semiótica postula que o estudo da significação só pode ser feito por abordagens diversificadas e distintas, isto é, segundo níveis(3) diferentes , definidos eles-mesmos pelo conjunto de traços distintivos comuns aos (ou extraídos dos) objectos estudados.

J. Courtés, Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva, tradução portuguesa de Norma Tasca, Livraria Almedina, Coimbra, 1979, págs. 41-43.

Notas:
1. Courtés evoca (para dele se demarcar) o modelo trabalhado por Claude Shannon e Warren Weaver no ensaio de 1949 intitulado “A Mathematical Model of Communication” que desenvolve um estudo anterior de Claude Shannon. Cf..
2. Em vez de “extrair” seria mais apropriado falar em “produzir”. Como clarifica A. J. Greimas na introdução da obra, o sentido é produzido pela performance de um sujeito semiótico competente. Cf. págs. 21 e segs.
3. Níveis a que Jacques Fontanille chama de “níveis de pertinência semiótica”. Cf. Jacques Fontanille, “Textes, objects, situations et formes de vie. Les niveaux de pertinence du plan de l’expression dans une sémiotique des cultures” (2005).

3 responses to “Fragmento (Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva)

  1. Olá Professor,

    A dúvida que tenho e que talvez devesse guardar para a aula de amanhã, no entanto fica a minha questão: Ao fazer um estudo Semiótico sobre um objecto ( Texto, pintura, filme…) tem que se fazer esse estudo com instrumentos da Semiótica ou a própria Semiótica é referida sempre a si própria e aos seus termos como que farolins na própria análise do objecto?

  2. Logo na introdução de Umberto Eco que refere na bibliografia, há uma questão que me interessou, o estudo semiótico já seria feito muito antes por filósofos, sem que assim fosse chamado, por ainda não existir essa escola, estará certo? ( Quando refere Aristoteles ” O ser é o que a linguagem expressa de muitas maneiras” – isto vai acontecendo e é mutável e com leituras várias) Mas, parte no estudo semiótico de regras e instrumentos que temos que conhecer?
    Será uma prática que mesmo antes de ter nome existe a partir do momento em que “dissecamos” um qualquer objecto a que pretendemos dar sentido, significação, que se vai modificando e desenvolvendo e sendo criado por interpretes diferentes?

  3. Embora me tenha dito que as questões – muito bem formuladas – que coloca haviam ficado respondidas na última aula, gostaria de acrescentar que a sua dúvida decorre na própria natureza do funcionamento da Semiótica. De facto (como sublinha Greimas no Prefácio à Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva de J. Courtés) a Semiótica resulta de um “fazer” (que não tem de corresponder necessariamente a uma experiência menos natural como a metáfora do “dissecar” indica) pelo que exige a “performance do sujeito” (termos de Greimas) nesto sentido devemos admitir um plano de “construção de sentido” de tipo natural, uma Semiótica natural. No entanto quando nos referimos à Semiótica estamos, quase sempre, a pensar num exercício de análise (operando com instrumentos específicos) que se vai ocupar, no fundo, de explicar, descrever, compreender essa “semiótica natural”.

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